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Edgar Morin testemunhou século de rupturas e fez da complexidade uma chave para ler o mundo
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Bem antes da explosão da internet e do advento da inteligência artificial, autor francês já enxergava uma mudança radical de paradigmas e alertava para o risco de se ter um desenvolvimento acelerado do conhecimento científico sem a devida consciência ou reflexão
Por Luciana Garbin
ARTIGO
POR ABDON BARRETTO FILHO
Em 1982, o sociólogo, filósofo e historiador francês Edgar Morin deu uma conferência no Clube Epistemológico da Universidade de Aix-en-Provence, na França. Nela, tratou da relação entre dois conceitos ainda fundamentais quase meio século depois: ciência e consciência.
Morin começou citando uma frase célebre dita no século 16 por seu compatriota François Rabelais: “Ciência sem consciência é somente a ruína da alma”. E emendou: “Encontramo-nos num ponto em que o conhecimento científico está sem consciência. Sem consciência moral, sem consciência reflexiva e também subjetiva”.
Na época, ainda não se vislumbrava o que seria a vida após a revolução digital causada pela explosão da internet e, mais recentemente, pelo desenvolvimento da inteligência artificial. Mas o autor do chamado Pensamento Complexo, que defende interconexão de saberes para lidar com incertezas e desafios contemporâneos, já enxergava uma mudança radical de paradigmas.
“Estamos num período ‘entre dois mundos’: um que está prestes a morrer, mas não morreu ainda, e outro que quer nascer, mas não nasceu ainda. Estamos numa grande confusão, num desses períodos angustiantes, de nascimentos, que se assemelham aos períodos de agonia, de mortes, mas creio que nessa grande confusão existam movimentos diferentes para a reintrodução da consciência na ciência.“
Na mesma conferência, Morin lembrou que, enquanto a cultura humanista leva a interrogações sobre o homem, a sociedade, o destino, a vida, a morte e se fundamenta e reflete sobre um número de conhecimentos limitado, a nova cultura científica se fundamentava cada vez mais numa enorme quantidade de conhecimentos e informações que nenhum espírito humano saberia nem poderia armazenar.
“É impossível ter uma visão sobre o homem, a sociedade, o universo acumulando esse material, tanto mais que esse material está fechado, compartimentado (...) Em outras palavras, eis um conhecimento que não se pode discutir, sobre o qual não se pode refletir”, disse Morin.
E continuou: “O trágico é que enquanto nos lamentamos, sofremos essa situação, em que finalmente não sabemos mais o que pensar, existe não somente uma aceitação resignada, mas uma aceitação sólida. Diz-se: É assim, e isso deve ser assim; é preciso que seja assim e é preciso que continue cada vez mais desse modo”.
Para o filósofo, esse “neo-obscurantismo generalizado” implicava uma renúncia submissa e fatalista à ignorância e à incapacidade de saber.
“No final, vê-se que a enorme quantidade de saber que continua a ser produzida vai se acumulando cada vez mais para ser estocada, graças aos computadores, aos meios informáticos, nos bancos de dados manipulados e tratados pelos computadores, devido a necessidades e demandas de instâncias anônimas, da empresa e do Estado.”
Morin também avaliou que, “se esse processo se tornasse dominante, pela primeira vez o saber seria produzido não para ser pensado, refletido, discutido entre os seres humanos, mas essencialmente para ser armazenado e manipulado por instâncias anônimas”.
Algo parecido ao que acontece hoje, com milhões de dados pessoais sendo coletados e armazenados diariamente por bigtechs e outras empresas de tecnologia para fazer negócios e alcançar balanços bilionários.
Em 2021, ao repassar seus cem anos de vida no livro Lições de um século de vida, Morin retomou alguns desses conceitos. Contou que foi enxergando com nitidez cada vez maior ao longo do tempo que, no universo, “forças de associação e união se combinam com as de dispersão e destruição” e o progresso econômico e técnico pode comportar um retrocesso político e civilizacional, o que lhe parecia cada vez mais óbvio no século 21.
Morin lembrou que a globalização técnico-econômica criou uma comunhão de destinos entre os seres humanos na expansão econômica planetária, na degradação da biosfera, nos perigos decorrentes da proliferação das armas nucleares. Mas a consciência sobre todo esses riscos não cresceu.
O filósofo francês ainda via “efeitos perversos” do predomínio universal do lucro e da crise das democracias. E, com o poder de fala de quem viveu duas guerras mundiais, viu de perto o avanço do nazismo e se decepcionou também de perto com o stalinismo, ele cravou como uma das maiores lições de suas experiências a convicção de que “nenhum avanço histórico é irreversível”.
“Vê-se a formação, no mundo inteiro, inclusive na Europa, de regimes autoritários de fachada parlamentar, em especial o neototalitarismo da China, baseado em vigilância eletrônica, testemunho do retrocesso que ocorre mundialmente desde o início do século 21”, escreveu. “Perpassando todo esse cenário está a questão climática - ou ecológica, como se costumava chamar décadas atrás.”
E, se tudo isso não fosse suficiente, há a desinformação. “Como se premunir contra as notícias falsas, agora chamadas de fake news? A experiência me mostrou que o perigo de sermos desinformados é muito grande quando não dispomos de várias fontes nem de opiniões diferentes sobre um mesmo acontecimento.”
Morin se queixou de um certo “sonambulismo e cegueira” na sociedade. “O que temos diante de nós? Consciências dispersas, revoltas reprimidas, associações de solidariedade, um pouco de economia social e solidária, mas nenhuma força política coerente com um pensamento orientador”, resumiu.
Ainda num contexto de quarentena imposto pelo coronavírus, o filósofo francês voltou então a citar Rabelais. “Os Estados se apossam dos poderes da arma nuclear (...), o lucro se apossa da genética, transformando pesquisadores em negociantes, enquanto a pesquisa médica está nas mãos de trustes multinacionais farmacêuticos que se dedicam a produzir medicamentos rentáveis em detrimento de outros não rentáveis.
Todos esses perigosos desenvolvimentos conferem sombria atualidade à velha fórmula de Rabelais: “Ciência sem consciência é a ruína da alma”.
Para ele, a ética só pode provir de morais externas, sejam laicas ou religiosas, e era fundamental reforçar a política e regenerar o humanismo.
E o que é ser humanista hoje?
“Ser humanista não é apenas pensar que os perigos, as incertezas e as crises (entre as quais a da democracia, a do pensamento político, a provocada pela explosão do lucro, a da biosfera e a multidimensional da pandemia) nos uniram numa comunhão de destinos”, escreveu. “Ser humanista não é apenas saber que somos todos humanos semelhantes e diferentes, não é apenas escapar das catástrofes e aspirar a um mundo melhor.
Ser humanista é também sentir intimamente que cada um de nós é um momento efêmero de uma aventura extraordinária, a aventura da vida que deu origem à aventura humana, que, ao longo de criações, tormentos e desastres, chegou a uma crise gigantesca, na qual está em jogo o destino da espécie.
O humanismo regenerado, portanto, não é apenas o sentimento de comunidade humana, de solidariedade humana, é também o sentimento de estar no interior dessa aventura desconhecida e incrível, e desejar que ela continue em direção a uma metamorfose, da qual nascerá um novo devir.”
Num século 21 cada vez mais complexo, as ideias e as obras de Edgar Morin - falecido nesta sexta-feira, 29 de maio, aos 104 anos - parecem também cada vez mais necessárias.
O Positivismo é uma composição do " Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim". Logo, continua vivo no século XXI...
Por Abdon Brretto Filho - Economista e Mestre em Comunicação social