31 de julho de 2025
ELEIÇÕES 2026

O rosto da democracia

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Por Bancada Sulista, reprodução da Reportagem Especial da Agência Senado
Publicado em
Eleições e Congresso - Foto: Agência Senado

O Brasil se prepara para ter as eleições gerais com o maior eleitorado da sua história: o país registra hoje perto de 159 milhões de votantes cadastrados. Em outubro, eles vão eleger presidente, governadores, deputados federais e estaduais e dois senadores por estado.

O número representa apenas um pequeno aumento em relação ao pleito de quatro anos atrás, quando havia 156 milhões de eleitores, indicando que o crescimento do eleitorado pode ter chegado ao seu limite. Mesmo assim, consolida a mobilização democrática em constante expansão desde o início da Nova República, nos anos 1980. Para comparação, na primeira eleição presidencial do período, em 1989, o Brasil tinha um eleitorado de pouco mais de 80 milhões — cerca de metade do atual.

Essa massa de pessoas carrega uma multiplicidade de certezas, demandas e aspirações. Decifrá-las será o papel das urnas em outubro. Até lá, o retrato estatístico do eleitorado brasileiro pode oferecer pistas sobre o que pensam sobre os rumos do país e sobre sua própria voz.

O retrato da maioria

Se considerarmos os perfis majoritariamente representados em cada uma das categorias estatísticas presentes no cadastro eleitoral em 2026, o eleitor brasileiro seria representado por uma mulher parda, na faixa etária de 35 a 44 anos e com o ensino médio completo. As mulheres permanecem como a maioria do eleitorado, compondo 52% (81,8 milhões) do total, enquanto os homens representam 48%. No quesito escolaridade, o grupo com ensino médio completo é o mais expressivo (27,04%), totalizando 42,1 milhões de pessoas. Em relação à cor e raça, os pardos são a maioria absoluta (53,57%), seguidos de brancos (33,34%) e pretos (11,39%).

Jovens e idosos

Um dado importante para o comportamento das urnas em 2026, como sempre, será o engajamento dos grupos para os quais o voto não é obrigatório: jovens com 16 e 17 anos e idosos com 70 anos ou mais. Juntos, esses contingentes somam 20,5 milhões de brasileiros.

  • Engajamento jovem: O alistamento de adolescentes de 16 e 17 anos totaliza 2,1 milhões de eleitores em 2026. É uma faixa etária que apresenta volatilidade conforme o tipo de eleição que se avizinha, mas o número de jovens que se habilitaram para votar no pleito geral de 2022 foi praticamente equivalente.
  • Envelhecimento: O número de eleitores com 70 anos ou mais, por sua vez, poderia esperar um crescimento mais acentuado, reforçando a tendência de envelhecimento da base eleitoral. Entre 2022 e hoje, o total de eleitores nessa faixa pouco avançou, indo de 14,9 milhões para pouco mais de 15 milhões.

A preocupação da justiça eleitoral em ampliar os pontos de votação e os cuidados com a acessibilidade é muito oportuna, principalmente para permitir a votação dos eleitores mais vividos. O fato de termos tantos jovens se alistando no sistema eleitoral confirma, entre outras

coisas, que eles vêm se conscientizando de que, para termos políticos que trabalham para fazer leis que melhoram o Brasil, é necessário o envolvimento de todos na escolha de nossos representantes. Não tenho dúvidas que isso é fruto da evolução do sistema educacional, que vem proporcionando a eles oportunidade de estudar e se conscientizar em relação à política brasileira. Fico feliz com esse expressivo número de jovens que irão votar pela primeira vez e espero que eles, ao escolher seus representantes, pensem não somente na euforia do novo momento, mas no Brasil do futuro, votando em candidatos comprometidos.

José Nogueira

Bancário aposentado, 70 anos

O poder da inclusão

O engajamento do cidadão ganhou uma nova camada desde as últimas eleições gerais. Em 2023, a Justiça Eleitoral começou a compilar várias categorias de declaração de identidade no levantamento estatístico do eleitorado, como cor/raça e identidade de gênero. A identificação, opcional, foi disponibilizada para o cadastro eleitoral no ano anterior. A maioria das pessoas prefere não responder a essa categorização, mas o número dos que aderem cresce rapidamente, ajudando a consolidar a medida.

Como nas últimas eleições eu já havia passado pelo processo de transição há muitos anos, ser chamado pelo meu nome de fato foi uma experiência cotidiana, nada muito diferente do que estou acostumado. Terrível teria sido, apesar de todos os anos de transição, ter sido chamado pelo meu nome 'morto'. Acredito que o motivo do número de eleitores com nome social não necessariamente representa algo sobre a confiança no sistema eleitoral, pois essa confiança está associada a questões político-ideológicas que podem até perpassar a identidade de gênero desses eleitores, mas não necessariamente. Me parece que mais pessoas estão se sentindo confortáveis para começar seus processos de transição. Concomitantemente, as ferramentas de acesso a políticas de nome social estão sendo mais divulgadas entre as pessoas trans porque a rede de contatos tem crescido.

Isaac Vilela de Vasconcelos

Estudante de Ciências Sociais, 20 anos

A Justiça Eleitoral também aceita o registro do eleitor com o nome social, que é a identificação escolhida por um cidadão transexual para atender à sua identidade de gênero — em oposição ao nome civil, que foi registrado no nascimento. Para se cadastrar com o nome social basta a autodeclaração: não é preciso apresentar outros documentos em que conste o mesmo nome. Uma vez inscrito no cadastro eleitoral com o nome social, o eleitor não terá o seu nome civil divulgado pela Justiça Eleitoral, exceto em caso de exigências legais ou de solicitação própria.

  • Identidade de gênero: Em maio de 2023, quando a Justiça Eleitoral começou a divulgar essa informação, menos de 2% do eleitorado indicava sua identidade de gênero (cisgênero ou transgênero); hoje, são mais de 20%, ou quase 33 milhões de pessoas.
  • Nome social: O número de pessoas que utilizam nome social no título alcançou 41.537 eleitores em 2024, nas eleições municipais. Nas eleições gerais de 2022, esse número era de 37.646 pessoas, evidenciando um crescimento constante na busca por reconhecimento.
  • Pessoas com deficiência: O eleitorado que declara alguma deficiência atingiu o recorde de 1,45 milhão de pessoas. Este contingente é significativamente maior que o de ciclos anteriores, tendo duplicado nos últimos oito anos e crescido substancialmente desde o pleito de 2022.
  • Inclusão indígena: No último pleito, foram distribuídos mais de 21 mil cartazes nos idiomas Nheengatu e Guarani para orientar as comunidades em suas línguas originárias. Para 2026, a Justiça Eleitoral já trabalha na ampliação dessas medidas para garantir a pluralidade e a representatividade nacional.

O crescimento expressivo do uso do nome social no título de eleitor demonstra o avanço de uma política pública voltada à inclusão e ao reconhecimento da identidade de gênero. A possibilidade de autodeclaração simplificada, sem a necessidade de prévia alteração dos documentos civis, fortalece o princípio da cidadania plena ao remover barreiras burocráticas para o exercício dos direitos políticos. Trata-se de uma medida concreta mas também profundamente simbólica, representativa e democrática, pois assegura que, justamente no momento mais importante da participação política — o exercício do voto —, a pessoa seja identificada pelo nome com o qual se reconhece. Essa garantia promove dignidade, respeito à identidade da pessoa, reduz constrangimentos nas seções eleitorais e reforça o compromisso da Justiça Eleitoral com a igualdade, a inclusão e a efetiva participação de todas as pessoas na democracia.

Priscilla Sodré Pereira

Advogada Eleitoral

"Vácuo" ideológico e geografia do voto

Para além da demografia, o comportamento político revela um cenário de independência ideológica: cerca de 40% dos eleitores não se consideram de esquerda, direita ou centro. O apontamento vem do Instituto DataSenado, que, em 2024, mapeou a cabeça do eleitor na pesquisa Panorama Político.

A análise mais segura sobre o Brasil atual é que o eleitorado não aceita ser enquadrado em definições binárias de esquerda ou direita, com uma fatia de 40% da população recusando essas etiquetas. Muitas especulações comuns sobre quem é esse eleitor não se sustentam diante da realidade, que se mostra muito mais 'cinza e difusa'. Longe de ser uma massa apática, esse grupo é, em grande medida, politizado e comprometido com valores democráticos. Participam ativamente dos processos decisórios e mantêm posições firmes sobre a legitimidade do sistema eleitoral — revelando que a política brasileira é movida por convicções substantivas, mesmo quando não expressas em termos de '-ismos'.

José Henrique de Oliveira Varanda

Coordenador do DataSenado

Somados aos 11% que se declaram de centro, a maioria dos eleitores (51%) situa-se fora dos polos tradicionais, tendência que é ainda mais forte entre as mulheres (55%).

O que também emerge com força, segundo o coordenador do DataSenado, é outro fenômeno: o protagonismo das mulheres na defesa da democracia e uma juventude que, mesmo acompanhando menos o cotidiano legislativo, tem uma agenda de valores clara e progressista em temas como direitos civis e justiça social.

Para ele, isso é sinal de que a identidade política vem sendo moldada mais por causas do que por identificações partidárias clássicas. Essa conclusão também carrega um recorte geográfico. Por exemplo, regiões como o Sul e o Centro-Oeste priorizam debates sobre segurança pública e armamento, enquanto o Nordeste se destaca pela confiança institucional.

— A geografia política do país revela que o Brasil não possui uma consciência única, mas sim um mosaico de agendas que variam conforme o território e o estilo de vida. Essa segmentação, somada à análise por perfis de comportamento, permite entender que a ideologia declarada é apenas um descritor superficial. O que define o eleitor são suas afinidades reais com temas como direitos, economia e confiança nas instituições, elementos que permitem separar os grupos bem demarcados daqueles que ainda habitam a zona de incerteza política.

Eleições e Congresso: o caminho para um novo Código Eleitoral

Enquanto o eleitorado se transforma, o Congresso Nacional trabalha no projeto para o novo Código Eleitoral (PLP 112, DE 2021), sob a relatoria do Senador Marcelo Castro (MDB-PI). O texto é ambicioso: com ele, o país vai unificar todas as suas normas eleitorais, hoje dispersas entre várias legislações.

Entre outras inovações, o novo Código pode incentivar a participação política das mulheres. O texto cria uma reserva de 20% das cadeiras nas casas legislativas para mulheres durante 20 anos. Atualmente, há uma cota para candidaturas femininas, mas nenhuma garantia de vagas. A ideia é reduzir o descompasso atual entre as candidaturas: apesar da maioria feminina e parda no eleitorado, as candidaturas ainda são predominantemente de homens (66%) e brancos (46,8%).

A iniciativa, porém, tem como contraponto a suspensão da punição para partidos que não cumpram a cota de candidaturas femininas, o que efetivamente leva ao fim dessa regra. A suspensão duraria ao longo dos 20 anos em que a reserva de vagas for aplicada. A Bancada Feminina do Senado argumenta que a perda da garantia de candidaturas não compensa, em termos de representatividade, a nova regra eleitoral das cadeiras garantidas para mulheres.

A modernização proposta pelo novo Código não se limita à representatividade: ela também busca blindar o processo eleitoral contra os riscos impostos pelas novas tecnologias. Segundo o relator, o uso da inteligência artificial nas campanhas passa a ter regras claras.

O novo Código Eleitoral reconhece que a tecnologia é um instrumento importante para ampliar o debate público, mas deixa claro que ela não pode ser utilizada para manipular a vontade do eleitor. Por isso, estabelecemos regras para o uso da inteligência artificial nas campanhas. Todo conteúdo produzido ou alterado por IA deverá ser claramente identificado, para que o cidadão saiba exatamente o que está consumindo. O objetivo é preservar a liberdade de expressão, mas impedir fraudes, manipulações e abuso de poder tecnológico que possam comprometer a igualdade entre os candidatos e a livre escolha do eleitor.

Senador Marcelo Castro

MDB-PI

Para o senador, essa regulação não representa uma ameaça à liberdade de expressão — pelo contrário, ela visa justamente distinguir o debate político legítimo do uso fraudulento da tecnologia:

— A liberdade de expressão é um dos pilares da democracia e permanece plenamente preservada. O Código não pune opiniões, críticas ou posicionamentos políticos. O que ele combate é a fraude. Quando alguém utiliza inteligência artificial para criar uma falsa declaração de um candidato, manipular imagens ou induzir deliberadamente o eleitor ao erro, deixa de exercer a liberdade de expressão e passa a praticar um abuso que compromete a legitimidade da eleição. Nosso cuidado foi construir regras que garantam a transparência no uso da IA e responsabilizem quem age de má-fé.

Entre outras inovações, o projeto do novo Código Eleitoral também trata de:

  • Aumentar a transparência da prestação de contas partidárias
  • Instituir o voto impresso
  • Instaurar uma quarentena para agentes públicos se candidatarem

O projeto veio da Câmara dos Deputados e já passou pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com parecer favorável. Agora, ele precisa da aprovação do Plenário do Senado. Como houve mudanças promovidas pelos senadores, ele precisará voltar para a confirmação dessas mudanças pelos deputados.

Mesmo se for aprovado antes de outubro, o novo Código não terá validade para as eleições deste ano, devido ao princípio da anualidade eleitoral: novas leis que alteram regras de eleições não se aplicam aos pleitos realizados dentro do primeiro ano da sua vigência.

Reportagem: Maria Fernanda de Oliveira (sob supervisão)

Edição: Guilherme Oliveira
Infografia: Diego Jimenez
Edição de imagens e multimídia: Bernardo Ururahy
Foto de capa: Marri Nogueira/Agência Senado

Bancada Sulista, reprodução da Reportagem Especial da Agência Senado

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