Lula busca a virada em 2026 que Jair Bolsonaro quase conseguiu em 2022
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Com agencia
(Brasília-DF, 10/10/2026). Muito se fala se é possível uma virada na eleições presidencial em segundo turno de 2026, até porque nunca houve uma diferença tão pequena entre os primeiro e segundo colocado na disputa de primeiro turno.
No pleito decisivo à Presidência de 2022, o então candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, alcançou um verdadeiro "milagre" eleitoral, segundo o cientista político Rodrigo Mahlmeister, pesquisador da Duke University, na Carolina do Norte (EUA).
Depois da disputa apertada no primeiro turno — cuja diferença fora de 6,1 milhões de votos —, ele conseguiu angariar algo como 7,1 milhões de novos eleitores, sem que seu oponente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), acompanhasse seu ritmo, somando 3 milhões de votos a mais.
Bolsonaro elevou seus votos em quase 14% entre os dois turnos, enquanto Lula cresceu só pouco mais de 5%. É o movimento que a campanha do petista almeja fazer agora.
Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno, no domingo ,4, por 47,03%. Foram dados a ele pouco mais de 56,1 milhões de votos. Lula, por sua vez, teve 45,1%, ou 53,8 milhões de eleitores.
Analistas ouvidos pela BBC News Brasil ao longo desta semana apontam, porém, que essa tarefa será mais difícil para o atual presidente. Primeiro porque o senador do PL deverá receber quase a totalidade dos votos dos outros candidatos derrotados no começo da disputa — que estão mais à direita do que os concorrentes do pleito passado.
Em segundo lugar, porque diversos estudos apontam que os benefícios sociais que Jair Bolsonaro estendeu e até criou, às vésperas de 2022, tiveram impactos eleitorais mais significativos nos resultados da corrida daquele ano do que as medidas adotadas pelo governo Lula agora, como reajustes no Bolsa Família, por exemplo.
Além disso, o petista viu parte da sua base eleitoral no Nordeste, que lhe deu a vitória na eleição passada, migrar, justamente, para a candidatura de Flávio Bolsonaro. A região, de certa forma, se tornou uma espécie de "nova Minas Gerais" para as estratégias eleitorais. Tradicionalmente o candidato à Presidência que vence a eleição em Minas Gerais acaba eleito.
Por fim, especialistas dizem que, se a campanha de Lula almeja convocar eleitores que não foram às urnas no primeiro turno, dificilmente ela terá sucesso, já que se trata de pessoas de baixa renda para quem a participação na eleição é mais custosa do que ficar em casa.
Mahlmeister usa a metáfora de uma maratona para ilustrar esse fenômeno: em 2022, Lula entrou no segundo turno ao lado da linha de chegada.
"Bastava um passo adiante e ele vencia", diz.
Foi o que aconteceu. O petista teve 48,43% dos votos no primeiro turno daquele pleito, enquanto Jair Bolsonaro ficou com 43,20%.
O candidato do PL, então, tinha que acelerar o passo para alcançar Lula e, em paralelo, precisava impedi-lo de se mexer. Era a sua única chance de ganhar a corrida.
"Como vimos, ele quase conseguiu. A virada não aconteceu por muito pouco", prossegue o cientista político, lembrando da diferença final, de 2,1 milhões de votos no segundo turno, que foi a mais apertada entre todas as eleições presidenciais desde a redemocratização.
Olhando eleições passadas, os cientistas políticos costumam ver as raras chances de uma virada no segundo turno apenas em casos onde os candidatos vitoriosos no primeiro saíram com margens mínimas de diferença. É por isso que o sprint de Jair Bolsonaro, em 2022, chama a atenção.
"Foi uma façanha que sequer foi totalmente explicada", continua Mahlmeister.
Na eleição de 2018, por exemplo, Fernando Haddad (PT) melhorou muito sua votação entre um turno e outro (ganhou 15,6 milhões de votos, o que significou uma alta de 50%). Porém, não foi suficiente para derrotar Jair Bolsonaro, à época no PSC, que vinha de um desempenho positivo no primeiro turno e ainda ganhou mais 8,5 milhões de votos no segundo (um aumento de 17,2%).
A cena já tinha acontecido, inclusive, no pleito anterior, em 2014, com Aécio Neves (PSDB): ainda que ele tenha crescido seu eleitorado em significativos 46,2% no segundo turno, não conseguiu chegar na então presidente Dilma Rousseff (PT), porque ela também subiu, ainda que em menor intensidade, no mesmo período (25,9%).
Essa diferença dos ritmos de Jair Bolsonaro e de Lula na reta final da eleição de 2022 foi tão grande que o cientista político Murillo Aragão — fundador da consultoria Arko Advice, em Brasília — acredita que não dá para dizer que o atual presidente foi, politicamente, o vencedor daquele pleito.
"Ele não ganhou ali. Foi o Bolsonaro quem perdeu", diz.
"Lula acha que ganhou, que foi reconduzido, revivido, ressuscitado, mas, na verdade, as pessoas só não queriam votar no Jair. Foi o anti-bolsonarismo que prevaleceu".
"Fato é que a situação agora está invertida", diz Jairo Pimentel, também cientista político que leciona na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP) e que dirige a consultoria de dados Quanti.Lab, sediada em São Paulo.
Pelos cálculos de Pimentel, considerando o histórico de eleições presidenciais de dois turnos em boa parte dos países do mundo, além da própria lógica ideológica de transferência de votos dos candidatos derrotados na primeira parte das disputas, Flávio tem 80% de chance de ser eleito no segundo turno.
"Uma das desvantagens de Lula está no fato desses concorrentes serem mais refratários a ele do que na composição da eleição passada", diz, apontando para Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) que, juntos, somaram 7% no primeiro turno. Exceto Santos, todos os outros declararam apoio ao senador do PL.
"Em 2022, os derrotados — embora com críticas ao PT — entregaram mais votos a Lula do que a Bolsonaro no segundo turno", continua. Naquele ano, de fato, Simone Tebet (MDB) e Ciro Gomes (PDT) também somaram, juntos, 7% na disputa inicial. Depois, se juntaram à campanha do petista.
Ou seja: é Flávio Bolsonaro (PL) quem já está ao lado da linha de chegada agora, a um passo de vencer, enquanto Lula precisa dar um sprint final e, ao mesmo tempo, evitar que o senador se mova minimamente. "Em tese, ele teria que repetir o 'milagre' de Bolsonaro", define Mahlmeister.
As primeiras pesquisas de intenção de voto no segundo turno indicam uma vantagem de três pontos, em média, para Flávio Bolsonaro, segundo o agregador da BBC News Brasil.
Os números "animaram muito" a campanha de Lula, disse à BBC News Brasil uma fonte da equipe do petista que não quis se identificar. Segundo a mesma fonte, havia uma expectativa interna de que a diferença entre os dois seria maior nas sondagens iniciais, sem contar o fato de que, pelos dados do Datafolha publicados na quinta-feira (8/10), 6% do eleitorado diz poder mudar a escolha até o dia 25.
A campanha de Flávio não respondeu aos pedidos de entrevista da BBC News Brasil.
Reverter a abstenção
Uma das estratégias aventadas pela equipe de Lula para tentar virar o resultado da eleição, daqui em diante, é convocar quem não compareceu às urnas no primeiro turno. Eles somaram 21,1% do eleitorado, praticamente o mesmo número de 2022 (20,9%).
O cientista político Jairo Nicolau, professor da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV-CPDOC), no Rio de Janeiro, calcula que a abstenção de agora foi maior no Sudeste (22,7%) e no Centro-Oeste (21,7%), e teve mais força em cidades pequenas, sobretudo dessas duas regiões.
Foi o inverso do Nordeste, justamente onde Flávio Bolsonaro cresceu e Lula retraiu: além de ter a menor taxa de abstenção do país (18,4%), a região ainda viu 1,4 milhão de eleitores a mais comparecer às urnas em comparação a 2022.
O ponto, segundo Nicolau, é que há dois perfis específicos de eleitores que não foram votar no domingo: jovens que, embora sejam obrigados pela lei, decidem se abster de ir à seção eleitoral, e idosos de baixa escolaridade, para quem o custo do deslocamento — tanto físico quanto financeiro — é maior do que o de não participar da eleição.
"Uma campanha que queira ampliar sua votação mobilizando quem faltou na eleição deve olhar para os grupos que sejam, ao mesmo tempo, numerosos entre os que se abstiveram e favoráveis ao seu candidato", explica Nicolau.
"Para Lula, dois grupos preenchem esses requisitos: as mulheres jovens e as idosas. Para Flávio, os homens jovens", completa ele.
O problema da campanha de Lula, segundo Pimentel, da Quanti.Lab, fica mais nítido ao se debruçar sobre o perfil socioeconômico do público lulista que se absteve de votar.
"É um eleitor mais pobre, de baixa escolaridade e que depende de programas sociais. Para ele, é mais barato não ir, porque a penalidade é 'pequena'. Sem contar que ele é, de fato, um sujeito mais alienado da política", admite.
Já para o grupo que tende a votar mais em Flávio Bolsonaro — do Sudeste, justamente onde a abstenção foi maior, por exemplo —, o custo de não participar do pleito é mais decisivo.
"É uma classe média que, se não vota, terá dificuldades para tirar passaporte, para participar de concursos públicos. Ela sabe que é melhor comparecer para evitar esse tipo de dor de cabeça depois".
"Em outras palavras, a abstenção favorece a candidatura de Flávio".
Soma-se a isso, ainda, o fato de a maioria das unidades da Federação ter resolvido seus pleitos majoritários já no primeiro turno.
Apenas cinco Estados (Espírito Santo, Amazonas, Rio Grande do Norte, Acre e Tocantins), além do Distrito Federal, vão passar por uma nova eleição no dia 25 — o que, para Mahlmeister, é um indicativo de que a abstenção deve aumentar ainda mais.
"Os governadores que venceram não vão mobilizar os eleitores. Isso teve peso importante em 2022, quando sobraram 12 palanques estaduais no segundo turno".
Reunindo os efeitos dos benefícios sociais, as mudanças do Nordeste e as dinâmicas da abstenção, a probabilidade, apontam os especialistas, é que Flávio Bolsonaro seja, de fato, eleito no dia 25.
"Lula até vai ganhar alguma coisa [de votos], mas o Flávio ganhará mais. É isso que será decisivo", finaliza Pimentel.
( da redação com informações e textos da BBC. Edição: Política Real)